segunda-feira, agosto 07, 2006

BUSCA

Tenho encontrado muitas pessoas,
porém não encontro gente....
Há um vazio dentro de cada um,
um processo de fechamento em sentimentos.
Encontro sorrisos, porém daqueles
que expõem apenas os dentes, mas não a alma.
Encontro verdadeiras tocaias, e não corações.
Reservas insistentes da solidão.

Tenho encontrado pessoas medrosas,
indecisas, escondendo-se de si mesmas.
Pessoas que dizem:
Não sei...,
Não sei se quero...,
Não sei se posso...
Quando sabem exatamente o que querem e o que buscam,
e não se arriscam ao menor impulso.
Pessoas duras, escuras,
impossibilitadas de amar.
Estas, cansei de encontrar...

Busco por gente que empreste o ombro,
que não tenha medo de dizer que levou um tombo.
Busco por gente que assuma que amar traz sofrer,
e, com esta certeza, não venham a se esconder.
Busco por gente que tenha
a experiência de sobrevivente de guerra.

Busco por gente, que de tanto caminhar,
não tenha receio de dizer que seus pés
ainda têm muito por machucar.
Quero gente de coragem para comigo conversar.

Gente que saiba que máscaras
não dão mais para usar,
e sendo seu perfil interno, branco ou preto,
tenha a dignidade de revelar.

Busco por gente que chore livremente,
sem preconceitos pelas lágrimas derramadas.

Quero gente que saiba exatamente para onde
está indo e o que deseja encontrar,
mesmo que esta busca jamais venha alcançar.

Busco por gente,"Seres Humanos",
que saibam se doar,
estes, eu anseio por encontrar

Gente que saiba até ferir se precisar,
mas que seja valente em seu ato para não mais enganar,
a quem quer que seja, e a si próprio.

Gente de decisão,
sem argumento para esconder,
escusas ações.

Quero gente que é gente,
que mostra a cara,
vai à luta e dorme contente.

É desta gente que eu preciso!
Gente liberta,
que me dêem um canto em seu colo
e saibam me acariciar,
sem tempo,
sem hora
e em qualquer lugar.

http://www.coramaria.com.br/busca.htm
(Cora Maria)
http://www.coramaria.com.br/
PS.: Cora, minha querida, em nome de toda a humanidade, MUITO OBRIGADO.

sexta-feira, maio 19, 2006

Mundo virtual

Entrei apressado e com muita fome no restaurante.
Escolhi uma mesa bem afastada do movimento, pois queria aproveitar os poucos minutos que dispunha naquele dia atribulado, para comer e consertar alguns bugs de programação de um sistema que estava desenvolvendo, além de planejar minha viagem de férias que a tempos não sei o que são.
Pedi um filé de salmão com alcaparras na manteiga, uma salada e um suco de laranja, afinal de contas fome é fome, mas regime é regime né?
Abri meu notebook e levei um susto com aquela voz baixinha atrás de mim:
-Tio, dá um trocado?
-Não tenho, menino.
-Só uma moedinha para comprar um pão.
-Esta bem, compro um para você.
Para variar, minha caixa de entrada esta lotada de e-mails. Fico
distraído vendo poesias, as formatações lindas, dando risadas com as piadas
malucas.
Ah! Essa música me leva a Londres e a boas lembranças de tempos idos.
-Tio, pede para colocar margarina e queijo também.
Percebo que o menino tinha ficado ali.
-Ok. Vou pedir, mas depois me deixe trabalhar, estou muito ocupado, ta?
Chega a minha refeição e junto com ela meu constrangimento.
Faço o pedido do menino, e o garçom me pergunta se quero que mande o
garoto ir embora. ,
Meus resquícios de consciência, me impedem de dizer.
Digo que esta tudo bem.. Deixe-o ficar.
Que traga o pão e, mais uma refeição descente para ele.
Então ele sentou á minha frente e perguntou:
-Tio o que está fazendo?
-Estou lendo uns e-mails.
-O que são e-mails?
-São mensagens eletrônicas mandadas por
pessoas via Internet (sabia que ele não ia entender nada, mas, a
título de livrar-me de maiores questionários disse):
-É como se fosse uma carta, só que via Internet.
-Tio você tem Internet?
-Tenho sim, essencial ao mundo de hoje.
-O que é Internet ?
-É um local no computador, onde podemos ver e ouvir muitas coisas,
notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar, trabalhar,aprender.
Tem de tudo no mundo virtual.
-E o que é virtual?
Resolvo dar uma explicação simplificada, novamente na certeza que ele
pouco vai entender e vai me liberar para comer minha refeição, sem culpas.
-Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos pegar,tocar.
É lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer.
Criamos nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como queríamos
que fosse.
-Legal isso..
Gostei!
-Mocinho, você entendeu que é virtual?
-Sim, também vivo neste mundo virtual.
-Você tem computador?
-Não, mas meu mundo também é desse jeito... Virtual.
Minha mãe fica todo dia fora, só chega muito tarde,
quase não a vejo, eu fico cuidando do meu irmão pequeno que vive
chorando de fome e eu do água para ele pensar que é sopa,
minha irmã mais velha sai todo dia, diz que vai vender o corpo,
mas não entendo, pois ela sempre volta com o corpo, meu pai
está na cadeia há muito tempo, mas sempre imagino nossa
família toda junta em casa, muita comida, muitos brinquedos, de natal e
eu indo ao colégio para virar medico um dia.
Isso é virtual não é tio?
Fechei meu notebook, não antes que as lágrimas caíssem sobre o teclado.
Esperei que o menino terminasse de literalmente "devorar" o prato dele,
paguei a conta, e dei o troco para o garoto, que me retribuiu com um dos
mais belos e sinceros sorrisos que já recebi na vida e com um "Brigado tio você é
legal!".
Ali, naquela instante, tive a maior prova do virtualismo insensato
em que vivemos todos os dias, enquanto a realidade cruel
rodeia de verdade e fazemos de conta que não percebemos!

terça-feira, janeiro 31, 2006

Precisa-se de Matéria Prima para Construir um País

A crença geral anterior era que Collor não servia, bem como Itamar e Fernando Henrique. Agora dizemos que Lula não serve. E o que vier depois de Lula também não servirá para nada.
Por isso estou começando a suspeitar que o problema não está no ladrão corrupto que foi Collor, ou na farsa que é o Lula. O problema está em nós. Nós como POVO.

Nós como matéria prima de um país. Porque pertenço a um país onde a "ESPERTEZA" é a moeda que sempre é valorizada, tanto ou mais do que o dólar. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família, baseada em valores e respeito aos demais.

Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nas calçadas onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO OS DEMAIS ONDE ESTÃO.

Pertenço ao país onde as "EMPRESAS PRIVADAS" são papelarias particulares de seus empregados desonestos, que levam para casa, como se fosse correto, folhas de papel, lápis, canetas, clipes e tudo o que possa ser útil para o trabalho dos filhos ...e para eles mesmos.
Pertenço a um país onde a gente se sente o máximo porque conseguiu "puxar" a tevê a cabo do vizinho, onde a gente frauda a declaração de imposto de renda para não pagar ou pagar menos impostos.

Pertenço a um país onde a impontualidade é um hábito. Onde os diretores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos. Onde pessoas fazem "gatos" para roubar luz e água e nos queixamos de como esses serviços estão caros.
Onde não existe a cultura pela leitura (exemplo maior nosso atual Presidente, que recentemente falou que é "muito chato ter que ler") e não há consciência nem memória política, histórica nem econômica.

Onde nossos congressistas trabalham dois dias por semana para aprovar projetos e leis que só servem para afundar ao que não tem, encher o saco ao que tem pouco e beneficiar só a alguns.
Pertenço a um país onde as carteiras de motorista e os certificados médicos podem ser "comprados", sem fazer nenhum exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no ônibus, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não dar o lugar.

Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o pedestre. Um país onde fazemos um monte de coisa errada, mas nos esbaldamos em criticar nossos governantes.
Quanto mais analiso os defeitos do Fernando Henrique e do Lula, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem "molhei" a mão de um guarda de trânsito para não ser multado.
Quanto mais digo o quanto o Dirceu é culpado, melhor sou eu como brasileiro , apesar de ainda hoje de manhã passei para trás um cliente através de uma fraude, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.

Não. Não. Não. Já basta.

Como "Matéria Prima" de um país, temos muitas coisas boas, mas nos falta muito para sermos os homens e mulheres que nosso país precisa.

Esses efeitos, essa "ESPERTEZA BRASILEIRA" congênita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos de escândalo, essa falta de qualidade humana, mais do que Collor, Itamar, Fernando Henrique ou Lula, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são brasileiros como nós, ELEITOS POR NÓS.
Nascidos aqui, não em outra parte... Me entristeço. Porque, ainda que Lula renunciasse hoje mesmo, o próximo presidente que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos.

E não poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém o possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.

Nem serviu Collor, nem serviu Itamar, não serviu Fernando Henrique, e nem serve Lula, nem servirá o que vier. Qual é a alternativa? Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa.

E enquanto essa "outra coisa" não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados....igualmente sacaneados!!!

É muito gostoso ser brasileiro. Mas quando essa brasilinidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, aí a coisa muda... Não esperemos acender uma vela a todos os Santos, a ver se nos mandam um Messias.
Nós temos que mudar, um novo governador com os mesmos brasileiros não poderá fazer nada. Está muito claro...... Somos nós os que temos que mudar.

Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda nos acontecendo; desculpamos a mediocridade mediante programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso.

É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de surdo, de desentendido.

Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO.
E você, o que pensa?....
MEDITE!!!!!

JOÃO UBALDO RIBEIRO